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Viver com medo

Quite an experience to live in fear, isn't it?

Quite an experience to live in fear, isn’t it? ~ Blade Runner, 1982

O medo é umas das sensações mais primitivas dos seres humanos. Desde tempos imemoriais esse estado de alerta tem nos protegido do perigo e garantido nossa sobrevivência. Quando a adrenalina é liberada em nosso corpo é como se pudéssemos lutar contra nossos piores temores e fugir dos monstros terríveis de nossa imaginação. Na aventura de nossa curta existência, regida pelo acaso e pelo caos, situações distintas nos aterrorizam. Qual carreira escolher, qual carro comprar, qual cidade se mudar para; e assim seguimos escolhendo, ora acertando, ora falhando.

Suponhamos agora que toda e qualquer decisão seja regida pelo medo. Todo momento está condensado em um temor constante que nos persegue. Não há como escapar. Em síntese, esta é a maneira que uma Testemunha de Jeová vive. Os membros dessa entidade religiosa são desde a infância persuadidos que precisam agradar tudo e a todos. Deus precisa se alegrar de suas ações, sua família precisa ter orgulho de você, a congregação quer que você seja um exemplo e, mais importante, você precisa estar com a consciência limpa e livre de influências “más”. (mais…)

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Por que criei este blog e por que isso foi uma péssima ideia

Há um dia que sempre nos pega de surpresa. Você acorda e tudo ocorre normalmente. Até que de súbito você descobre que alguém muito querido para você mentiu. Bola para frente, a vida é cheia dessas coisas. Mas o que você faz quando toda a realidade à sua volta, do dia para a noite, torna-se produto de um emaranhado sem fim de histórias falsas? Bem, não muito diferente, você segue em frente, aprende com aquilo e, se tudo ocorrer bem, você dará boas risadas do que um dia fora, por mais terrível que tal fato possa ter sido. Típico.

Porém, essa ideia dificilmente será aplicável se você for uma Testemunha de Jeová, muito menos se sua família também fizer parte do grupo religioso. O leitor, neste momento, deve estar indagando por que a situação se dá dessa maneira. Pois bem, é justo explicar e, para isso, é necessário que eu conte um pouco mais sobre mim para modo de contexto.

Há cerca de um pouco mais de duas décadas nascia eu, Theon. Meus pais e minha família eram, e são, até hoje membros ativos das Testemunhas de Jeová. Assim sendo, eu fui criado e ensinado dentro das leis e normas da Bíblia e da organização que comanda a religião, a reverente Torre de Vigia das Testemunhas Cristãs de Jeová. Minha infância e adolescência foram regidas por conceitos absurdos e deturpados sobre a vida e o mundo que nos rodeia. Mas quando se é uma criança, você acaba acreditando que isso é a coisa mais correta do mundo. Entre esses conceitos, a jovem Testemunha de Jeová é ensinada que não deve se relacionar com pessoas que não sigam a mesma religião, evitando todo o contato “desnecessário” com estes. A criança é proibida de ingressar nas atividades sociais mais banais como aniversários de colegas, atividade extracurriculares da escola, participação em qualquer evento que tenha origem pagã (segundo as publicações da Torre de Vigia) como Natal, Páscoa, feriados nacionais e assim por diante. Além de tudo, o jovem precisa se impor veementemente contra essas práticas, pregando a colegas e amigos que sua religião é a verdade absoluta, a salvação para todos os seres humanos que neste planeta habitam. Quando mais velho, é necessários que o membro se abstenha de qualquer relacionamento romântico fora da organização, assim como deve desconsiderar a possibilidade de ingressar em uma universidade ou curso superior para dedicar-se única e exclusivamente à pregação da palavra de Deus. (mais…)