Por que criei este blog e por que isso foi uma péssima ideia

Há um dia que sempre nos pega de surpresa. Você acorda e tudo ocorre normalmente. Até que de súbito você descobre que alguém muito querido para você mentiu. Bola para frente, a vida é cheia dessas coisas. Mas o que você faz quando toda a realidade à sua volta, do dia para a noite, torna-se produto de um emaranhado sem fim de histórias falsas? Bem, não muito diferente, você segue em frente, aprende com aquilo e, se tudo ocorrer bem, você dará boas risadas do que um dia fora, por mais terrível que tal fato possa ter sido. Típico.

Porém, essa ideia dificilmente será aplicável se você for uma Testemunha de Jeová, muito menos se sua família também fizer parte do grupo religioso. O leitor, neste momento, deve estar indagando por que a situação se dá dessa maneira. Pois bem, é justo explicar e, para isso, é necessário que eu conte um pouco mais sobre mim para modo de contexto.

Há cerca de um pouco mais de duas décadas nascia eu, Theon. Meus pais e minha família eram, e são, até hoje membros ativos das Testemunhas de Jeová. Assim sendo, eu fui criado e ensinado dentro das leis e normas da Bíblia e da organização que comanda a religião, a reverente Torre de Vigia das Testemunhas Cristãs de Jeová. Minha infância e adolescência foram regidas por conceitos absurdos e deturpados sobre a vida e o mundo que nos rodeia. Mas quando se é uma criança, você acaba acreditando que isso é a coisa mais correta do mundo. Entre esses conceitos, a jovem Testemunha de Jeová é ensinada que não deve se relacionar com pessoas que não sigam a mesma religião, evitando todo o contato “desnecessário” com estes. A criança é proibida de ingressar nas atividades sociais mais banais como aniversários de colegas, atividade extracurriculares da escola, participação em qualquer evento que tenha origem pagã (segundo as publicações da Torre de Vigia) como Natal, Páscoa, feriados nacionais e assim por diante. Além de tudo, o jovem precisa se impor veementemente contra essas práticas, pregando a colegas e amigos que sua religião é a verdade absoluta, a salvação para todos os seres humanos que neste planeta habitam. Quando mais velho, é necessários que o membro se abstenha de qualquer relacionamento romântico fora da organização, assim como deve desconsiderar a possibilidade de ingressar em uma universidade ou curso superior para dedicar-se única e exclusivamente à pregação da palavra de Deus.

Dentro da religião os membros são ensinados que em um futuro próximo todos os humanos viverão felizes aqui na Terra como um único povo escolhido por Deus, mesmo que isso possa ser questionado da maneira mais básica possível. A questão é que este questionamento não pode ser feito pelo indivíduo. Ainda que a Torre de Vigia incentive a leitura e a pesquisa, ambas devem ocorrer unicamente dentro das publicações da religião. Qualquer material que contrarie esses textos é considerado como apóstata ou mentiroso, mesmo que este tenha sido o resultado de anos e anos de pesquisa científica e extensivos testes. Você não pode questionar a autoridade de qualquer ensino que seja disponibilizado, ainda que estes sejam constantemente alterados para se adaptarem, ou às necessidades do momento, ou para encobrir erros e falácias do passado (falarei mais sobre esses em um post futuro). Como poderia então você analisar de outra perspectiva os ensinos que lhe foram passados? Bem, a Torre de Vigia não quer que você faça isso.

Acontece que quando eu completava 16 anos de idade, ainda que pressionado pela família e pelos membros da religião, decidi acreditar que as Testemunhas de Jeová eram as portadoras de uma verdade universal e então me batizei na religião. O batismo é para eles o passo essencial para a salvação vindoura, especialmente para aqueles que como eu nasceram dentro dentro do grupo. Inexperiente e reticente, até mesmo durante o dia de meu batismo, tornei-me o assunto recorrente para minha família e “amigos” da religião (o que pode ser considerado uma grande coisa uma vez que você dificilmente terá algum amigo verdadeiro fora da religião nesse ponto).

O período que se seguiu foi desagradável e conturbado. Ainda que por um lado eu gostaria de poder ter embasamento para falar sobre as “verdades” bíblicas, o quanto mais eu me esforçava para compreender o mundo que estamos inseridos, mais difícil se tornava estabelecer uma relação entre as ideias mais simplórias da dita “verdade” e a realidade. Afogado pela agonia e tristeza que se abatiam constantemente, cheguei ao ponto de considerar o suicídio algumas vezes, especialmente quando constatei que toda minha vida tinha sido construída a base de mentiras.

O Grande Irmão está te observando

Seria mais simples apenas abandonar a religião e seguir com a sua vida, assim como ocorreria nas situações mencionadas no começo da postagem. Porém, você não pode deixar as Testemunhas de Jeová, se você for batizado. Se você decide abandonar a religião estará fadado a uma situação sem volta. Se o membro tenta mostrar que a religião tem claras contradições e ensinos mentirosos para alguém e isso chega aos ouvidos dos anciões — homens que são responsáveis pelas atividades de uma congregação —, essa pessoa estará com sérios problemas. Esses homens se reunirão com você e tentarão fazê-lo desistir dessas ideias, e caso isso não funcione, eles o expulsarão da religião pelo processo conhecido como desassociação. Em outro caso, o membro pode simplesmente enviar um carta para a congregação que frequenta pedindo o seu desligamento da organização, processo chamado de dissociação.

Independente da maneira como o membro decida se afastar da religião, ainda há um problema muito maior. Sua família.

As Testemunhas de Jeová não podem ter nenhum contato com pessoas desassociadas ou dissociadas. E acredite ou não, isso inclui a família direta. Seus pais, seus irmãos, ninguém poderá sequer cumprimentá-lo se você decidir que não fará mais parte da sua religião. Apesar da Torre de Vigia insistir que isso é modo de fazer o “pecador” se redimir e voltar para a organização mais tarde, esse método é cruel e injusto pela situação que o desassociado ou dissociado é colocado. Além do mais, isso de certa forma garante o controle da Torre sobre seus seguidores, especialmente porque os membros desligados da religião não terão lugar para expressar suas ideias. Se isso soar apenas um pouco parecido com o 1984 de George Orwell, não se engane, pois é assim que um membro que descobre a verdade sobre a verdade se sente dentro dos muros da Torre de Vigia.

A criação desse blog se deu pois vi necessário que eu tivesse um lugar livre de dogmas e preconceitos onde me expressar. Pretendo aqui tentar ajudar as pessoas que talvez estejam passando pela mesma situação e assim trocarmos experiências. No momento atual de minha vida é quase inconcebível que eu consiga me afastar da religião, então a única maneira de sentir-me melhor será ajudando outrem. O que é uma péssima ideia, conforme dito no título da postagem, pois se algo der errado é bem provável que eu sofra as consequências. Eu posso ver claramente meus familiares dizendo que eu fui um agente secreto de Satanás por todo esse tempo e é daí que o vem o título do site.

Mas este é um risco que vale a pena correr, creio eu.

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4 comentários

  1. Na realidade, jovem, eu não entendi seu texto. Ele já começa com um “Porém” para aquilo que deveria ser a resposta do “Por que” do seu título. Afinal, por que você criou o blog e por que ele foi má ideia? Entendo um pouco da sua situação por ser forista do extestemunhasdejeova.net , mas seu texto, já pelo começo, não fez qualquer sentido. Aliás, é um texto que já passa a péssima ideia de que o blog é uma péssima ideia e, aí, ninguém vai querer entrar mesmo, né? Explica melhor isso aí pra gente, pode ser? rsrsrs

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  2. Caro,

    Gostei do teu blog. Ao contrário do nosso amigo Robert, eu acho que entendi o que quis dizer. Falando o português claro – e chulo – o blog é bom para alertar as pessoas e você conseguir desabafar, mas é ruim porque se te pegarem você está fodido. Simples assim.

    Mas entendo o Robert também quando ele sugere mais clareza em suas ideias.

    Independentemente de qualquer opinião externa, faça sua vida valer a pena com as suas convicções. Siga pesquisando e conclua o que quer para a sua vida.

    Estamos juntos nessa.

    Abs

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    1. Sim, confesso que me perdi um pouco no texto, mas pretendo tentar ser mais claro em posts futuros. E bem, isso tudo foi mais um desabafo gigante também. Fico feliz que você tenha entendido meu ponto, por mais estranho que o texto possa ter saído haha.

      Obrigado pelo comentário.

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